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Mentiras e Algumas Verdades:
1- Os catálogos de exposição
atraem leitores pelos bons textos que apresentam.
Escritos numa linguagem clara e fluente, constituem vigorosos
exercícios estilísticos cuidadosamente elaborados.
Períodos curtos, elucidativos, reformulam conceitos
e tratam de questões essenciais da arte livres do embaraço
de complexas construções gramaticais.
Evitam-se assim termos técnicos quase intraduzíveis,
que serviram somente para encobrir a falsa sabedoria de quem
os escreve, deixando ao leitor a incômoda sensação
de pertencer a uma espécie invertebrada...
A concisão, o poder de síntese e uma exaustiva
revisão garantem a qualidade irrepreensível
de um trabalho destinado a apresentar artistas, sem, no entanto,
que se tenha de recorrer ao pedantismo das citações
ou, ainda, ao emprego de frase abusivamente elogiosas que
atribuam virtudes de genialidade a criações
medíocres. Cumprem, portanto, a função
que lhes é inerente ao intermediar à relação
público - obra, realizando necessárias ligações
entre universos às vezes tão díspares.
Tornam acessível ao simples mortal a apreensão
da obra através de uma seqüência de constatações
e reflexões que de outra forma seriam franqueadas apenas
aos iniciados nos edificantes caminhos da erudição.
2 - As fotos nos catálogos não são
melhores que as obras retratadas.
Apesar da alta qualidade demonstrada no profissionalismo com
que são feitas, jamais poderiam ser superiores ao que
simplesmente indicam, referenciam. O confronto entre o real
e sua representação confirmam essa idéia.
Se bem que cartões postais costumam ser mais bonitos
que os motivos reais que os suscitaram, assim como a imagens
dos cardápios de restaurantes muitas vezes são
mais atraentes que os pratos servidos...
3
- Mais difícil que conceber uma obra é conceitua-la.
Verdadeiros prodígios de inteligência são
necessários à nobre e impiedosa tarefa de alinhar
em tendências a dispersão natural do talento
criador. Uma visão reducionista, que tende a contextualizar
a produção suprimindo excessos e impertinências,
certamente produz os melhores - e mais devastadores - resultados.
O exercício da síntese é imprescindível
na apreciação de uma obra. Visto assim, sem
farpas ou arestas, os trabalhos podem ser avaliados sem perda
de tempo. A segurança de uma abordagem rápida
é garantida por quem está devidamente instrumentado
para separar o joio do trigo. Do contrario, a apreensão
e o julgamento de uma produção sofreriam muito
com a pressa característica de nossos tempos, que vem
fazendo seguidas homenagens à superficialidade. Só
mesmo o olhar autorizado do especialista possui essas propriedades
facilitadoras. O artista seria incapaz de realizar operações
mentais que envolveriam uma parte do cérebro desativada
pela excessiva utilização da outra.
Resta-lhe, portanto, adequar-se aos postulados dos que pensam
a arte e realizar a obediente ilustração das
teorias. Explica-se assim o aspecto uniforme de certa produção
atual, cuja configuração geral transmite a feliz
idéia de uma perfeita conjunção de propósitos.
É gratificante observar que em diversas exposições
a utilização inovadora dos mesmos procedimentos
e materiais (parafina, cera, ferrugem, etc.) resulta em obras
muito semelhantes na forma final. Uma provável coincidência
ou sintonia geral faz com que grupos unidos trabalhem para
causas comuns, todos eles, paradoxalmente, construindo uma
sagrada alegoria dos despojos do Muro de Berlim...
As exceções, no entanto, são muitas,
pois restringir a atuação artística a
visões estreitas é sabidamente um ato de dominação
ideológica que marginaliza criteriosamente as expressões
individuais. Um resquício. Talvez, do totalitarismo,
de memória recente.
4
- A originalidade é o ponto forte da arte contemporânea.
Componente fundamental nos processos criativos da atualidade,
a busca do novo é característica imanente ao
verdadeiro criador. Facilmente reconhecível, a originalidade
que denuncia o espírito investigador tornou-se um parâmetro
seguro na seleção de obras. Nos eventos públicos,
nos salões, especialistas de competência indiscutível
têm-se destacado pela extrema correção
e imparcialidade ao preestabelecer critérios de avaliação.
Não há favoritismos na aceitação
ou exclusão de obras também nos eventos de caráter
particular. Injunções políticas, forcas
econômicas, fidalguias, proteções hereditárias,
apadrinhamentos, distribuições de propinas,
manipulações da mídia, influencia de
greis, comadrismos de bastidores, adulações
intelectuais e ou sexuais não contam mais como padrões
prevalecentes de julgamento. São coisas do passado,
da História, às vezes habilidosamente construída
para disfarçar certas excrescências.
Hoje, sabe-se que o novo, per si, existe. É encontrado
com facilidade nas revistas especializadas, cujo conteúdo
enuncia o fim da idéia de que criar o novo é
fazer de novo. O fato de alguns periódicos chegarem
do exterior com certo atraso vem causando ruídos na
recepção das mensagens. Talvez assim se explique
a tendência de um público, um tanto confusa,
de imaginar-se presenciando revoluções no mundo
das artes, na verdade, estas já aconteceram há
algum tempo. Às vezes, há algumas décadas.
5
- O apoio à cultura no Brasil é irrestrito.
Exemplaridade tamanha só encontra procedentes no mecenato
renascentista. Sempre dispostos a contribuir generosa e incondicionalmente,
os nossos condottieri formam a bem informada classe dos guardiões
da expressividade humana. O incentivo à atividade cultural
revela o caráter altruísta e a preocupação
ilimitada de certos indivíduos para com a comunidade
à qual pertencem. Possuem a consciência plena
da importância como meta principal no desenvolvimento
do espírito critico de pessoas que, assim preparadas,
poderiam exercer plenamente seus direitos de cidadania, exigir
mais. Pensam também nas manifestações
culturais como fonte geradora de novos empregos, recursos
e lucros, abstendo-se de considera-las apenas como meras atividades
de lazer. Enfim, assiste-se hoje ao triunfo da sensibilidade
sobre a usura!
As instituições que promovem os eventos merecem
aqui uma menção especial. Observe-se o grande
significativo afluxo do público às exposições.
Os espaços tornaram-se insuficientes para abrigar multidões
tão diversificadas. Por isso que quase não se
vêem artistas durante as festas de inauguração.
São ausências deliberadas, que denotam a compreensão
de estar ocorrendo um verdadeiro fenômeno de massas.
Talvez assim se explique o fato de luzes e atenções
não estarem necessariamente voltadas às obras
nos vernissages, visto que o espetáculo humano tornou-se
o objeto de contemplação. Dessa mondanité,
antes hipócrita e preconceituosa, ouvem-se hoje comentários
instigadores da inteligência humana. Freqüentar
esses ambientes propiciadores de elucubrações
transcendentais tornou-se ultimamente um venturoso ato - a
comprovação definitiva de que hoje os artistas
não trabalham mais unicamente para obter a admiração
dos próprios artistas.
6
- O Artista é soberano.
A crescente conscientização profissional justifica
esta afirmação. Historicamente organizados em
corporações, os artistas plásticos notabilizaram-se
pela capacidade de união. Diante das questões
impostas pelo mercado, sempre solidários, dificilmente
deixam-se submeter-se a regras comprometedoras da qualidade
de seus trabalhos. Por isso mesmo, fugindo às tentações,
são tão intransigentes quando negociam preços
e exposições. E só trabalham gratuitamente
em função de causas sociais superiores, beneficentes.
O sentimento do viver comunitário, a tolerância
para com os iniciantes do real valor de sua produção
contam muito para que sejam respeitados pelos profissionais
das áreas adjacentes.
Todos sabem que o artista, produtor intelectual e manufatural
da obra, é o componente mais importante na hierarquia
das instituições culturais. É soberano.
Por isso, o jovem artista não precisa sentir-se constrangido
ao procurar espaços para mostrar os seus trabalhos,
pois ele representa a força que movimenta toda a entourage.
Dificuldades sempre existirão para aqueles que não
conseguem vencer a timidez e jamais mostram o que fazem. Do
contrario, estará sempre à sua espera o sorriso
acolhedor de profissionais de formação inquestionável
(alguns especializados na Sorbonne em boas maneiras). A recepção
ao trabalho é rápida, atenciosa e respeitosa.
A presteza transparece nos gestos e o conhecimento do métier
revela-se nas agudas observações do processo
de composição. Comentários denotativos
de vasto repertório literário e visual (provavelmente
extraído da leitura noturna de colunas sociais) desvelam
um sentido crítico apurado. E, se ocasionalmente evidenciarem-se
qualidades duvidosas na obra apresentada, a civilidade é
incontinente. Podem perfeitamente, num ato de cortesia, apontar
as inadequações do trabalho às tendências
usualmente expostas naquele espaço. Ou, polidamente,
indicar outros caminhos.
Ao se deparar com essas recusas, o artista não deve
desistir, pois o que importa mesmo é a perseverança.
Deve esperar. Se o reconhecimento não acontecer em
vida, não importa. A verdade, um dia, prevalecerá!
7
- A peneira do tempo é sábia.
As adversidades serão justamente compensadas. Alguns
nomes das listas telefônicas de assinantes passarão,
um dia destes, a encabeçar as de endereços.
A eternidade então estará escrita para sempre
numa placa enferrujada, no fim de uma rua, na virada de um
outro século. E, se por ansiedade ou qualquer outro
motivo o artista quiser reverter essa situação,
ficam aqui algumas indicações do que não
deve fazer: pensar - já existe quem o faça;
aprofundar-se - o superficial é de fácil assimilação;
demonstrar na obra intenções didáticas
- é desnecessário, já que se vive numa
situação cultural de Primeiro Mundo; fazer referencias
poéticas ou reivindicar - sinais de engajamento são
retrógrados; interferir na realidade - será
acusado de não exercitar a fantasia; desenvolver uma
linguagem individualizada - estará fora do estilo internacional;
utilizar-se da temática regionalista - pode indicar
ignorância ou xenofobia; fazer analogias literárias
(apesar de toda pintura britânica) - só se permitem
as musicais; vender trabalhos - será considerado artista
comercial; não vender trabalhos - será considerado
artista institucional; deixar de evidenciar, às vezes
até de maneira histérica, o gesto pictural -
transmitira ausência de espontaneidade; cortar as orelhar
- isto já foi feito; e, principalmente, manifestar
senso de humor.
Humor é irreverência. Irreverência é
sinônimo de inconformismo. Inconformismo facilmente
se confunde com sentimento de frustração no
ideário obtuso daqueles que se formaram durante o autoritarismo.
É sombria essa concepção de mundo que
minimiza o viver lúdico em favor de uma postura pretensamente
imbuída de seriedade - como se tudo perdesse a grandeza
sob a fina ótica da ironia. O discurso austero, mas
vazio, de quem nem sempre tem algo importante para comunicar
aos outros presta geralmente um desserviço à
História. Sabe-se hoje que grandes fatos foram registrados
num tom de severidade simplesmente para obscurecer situações
verdadeiramente cômicas. E o que permanece, talvez temporariamente,
é a visão difusa de acontecimentos encobertos
por grandes sombras.
It's all true.
Durante
um eclipse total, tudo e todos desaparecem por instantes.
Uma falsa noite se instaura, transformando a paisagem em pequenos
e indefinidos sinais. As montanhas, os caminhos, as casas,
os seres, os sons e as palavras subitamente imergem na massa
informe do desconhecido. Dos contornos das coisas restam apenas
fragmentos que se confundem e se aglutinam, rabiscando a escuridão.
E o universo, agora sem limites, resume-se a algumas estrelas
solitárias que ensaiam uma curta aparição
no céu. Mesmo assim elas tentem, ainda que por breves
momentos, iluminar o que muitos pensam ser a realidade.
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