27 de setembro a 11 de outubro de 1995
   
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7 Mentiras e Algumas Verdades:


1- Os catálogos de exposição atraem leitores pelos bons textos que apresentam.

Escritos numa linguagem clara e fluente, constituem vigorosos exercícios estilísticos cuidadosamente elaborados.
Períodos curtos, elucidativos, reformulam conceitos e tratam de questões essenciais da arte livres do embaraço de complexas construções gramaticais.
Evitam-se assim termos técnicos quase intraduzíveis, que serviram somente para encobrir a falsa sabedoria de quem os escreve, deixando ao leitor a incômoda sensação de pertencer a uma espécie invertebrada...
A concisão, o poder de síntese e uma exaustiva revisão garantem a qualidade irrepreensível de um trabalho destinado a apresentar artistas, sem, no entanto, que se tenha de recorrer ao pedantismo das citações ou, ainda, ao emprego de frase abusivamente elogiosas que atribuam virtudes de genialidade a criações medíocres. Cumprem, portanto, a função que lhes é inerente ao intermediar à relação público - obra, realizando necessárias ligações entre universos às vezes tão díspares. Tornam acessível ao simples mortal a apreensão da obra através de uma seqüência de constatações e reflexões que de outra forma seriam franqueadas apenas aos iniciados nos edificantes caminhos da erudição.

2 - As fotos nos catálogos não são melhores que as obras retratadas.

Apesar da alta qualidade demonstrada no profissionalismo com que são feitas, jamais poderiam ser superiores ao que simplesmente indicam, referenciam. O confronto entre o real e sua representação confirmam essa idéia. Se bem que cartões postais costumam ser mais bonitos que os motivos reais que os suscitaram, assim como a imagens dos cardápios de restaurantes muitas vezes são mais atraentes que os pratos servidos...

3 - Mais difícil que conceber uma obra é conceitua-la.

Verdadeiros prodígios de inteligência são necessários à nobre e impiedosa tarefa de alinhar em tendências a dispersão natural do talento criador. Uma visão reducionista, que tende a contextualizar a produção suprimindo excessos e impertinências, certamente produz os melhores - e mais devastadores - resultados. O exercício da síntese é imprescindível na apreciação de uma obra. Visto assim, sem farpas ou arestas, os trabalhos podem ser avaliados sem perda de tempo. A segurança de uma abordagem rápida é garantida por quem está devidamente instrumentado para separar o joio do trigo. Do contrario, a apreensão e o julgamento de uma produção sofreriam muito com a pressa característica de nossos tempos, que vem fazendo seguidas homenagens à superficialidade. Só mesmo o olhar autorizado do especialista possui essas propriedades facilitadoras. O artista seria incapaz de realizar operações mentais que envolveriam uma parte do cérebro desativada pela excessiva utilização da outra.

Resta-lhe, portanto, adequar-se aos postulados dos que pensam a arte e realizar a obediente ilustração das teorias. Explica-se assim o aspecto uniforme de certa produção atual, cuja configuração geral transmite a feliz idéia de uma perfeita conjunção de propósitos.

É gratificante observar que em diversas exposições a utilização inovadora dos mesmos procedimentos e materiais (parafina, cera, ferrugem, etc.) resulta em obras muito semelhantes na forma final. Uma provável coincidência ou sintonia geral faz com que grupos unidos trabalhem para causas comuns, todos eles, paradoxalmente, construindo uma sagrada alegoria dos despojos do Muro de Berlim...
As exceções, no entanto, são muitas, pois restringir a atuação artística a visões estreitas é sabidamente um ato de dominação ideológica que marginaliza criteriosamente as expressões individuais. Um resquício. Talvez, do totalitarismo, de memória recente.

4 - A originalidade é o ponto forte da arte contemporânea.

Componente fundamental nos processos criativos da atualidade, a busca do novo é característica imanente ao verdadeiro criador. Facilmente reconhecível, a originalidade que denuncia o espírito investigador tornou-se um parâmetro seguro na seleção de obras. Nos eventos públicos, nos salões, especialistas de competência indiscutível têm-se destacado pela extrema correção e imparcialidade ao preestabelecer critérios de avaliação. Não há favoritismos na aceitação ou exclusão de obras também nos eventos de caráter particular. Injunções políticas, forcas econômicas, fidalguias, proteções hereditárias, apadrinhamentos, distribuições de propinas, manipulações da mídia, influencia de greis, comadrismos de bastidores, adulações intelectuais e ou sexuais não contam mais como padrões prevalecentes de julgamento. São coisas do passado, da História, às vezes habilidosamente construída para disfarçar certas excrescências.
Hoje, sabe-se que o novo, per si, existe. É encontrado com facilidade nas revistas especializadas, cujo conteúdo enuncia o fim da idéia de que criar o novo é fazer de novo. O fato de alguns periódicos chegarem do exterior com certo atraso vem causando ruídos na recepção das mensagens. Talvez assim se explique a tendência de um público, um tanto confusa, de imaginar-se presenciando revoluções no mundo das artes, na verdade, estas já aconteceram há algum tempo. Às vezes, há algumas décadas.

5 - O apoio à cultura no Brasil é irrestrito.

Exemplaridade tamanha só encontra procedentes no mecenato renascentista. Sempre dispostos a contribuir generosa e incondicionalmente, os nossos condottieri formam a bem informada classe dos guardiões da expressividade humana. O incentivo à atividade cultural revela o caráter altruísta e a preocupação ilimitada de certos indivíduos para com a comunidade à qual pertencem. Possuem a consciência plena da importância como meta principal no desenvolvimento do espírito critico de pessoas que, assim preparadas, poderiam exercer plenamente seus direitos de cidadania, exigir mais. Pensam também nas manifestações culturais como fonte geradora de novos empregos, recursos e lucros, abstendo-se de considera-las apenas como meras atividades de lazer. Enfim, assiste-se hoje ao triunfo da sensibilidade sobre a usura!

As instituições que promovem os eventos merecem aqui uma menção especial. Observe-se o grande significativo afluxo do público às exposições. Os espaços tornaram-se insuficientes para abrigar multidões tão diversificadas. Por isso que quase não se vêem artistas durante as festas de inauguração. São ausências deliberadas, que denotam a compreensão de estar ocorrendo um verdadeiro fenômeno de massas. Talvez assim se explique o fato de luzes e atenções não estarem necessariamente voltadas às obras nos vernissages, visto que o espetáculo humano tornou-se o objeto de contemplação. Dessa mondanité, antes hipócrita e preconceituosa, ouvem-se hoje comentários instigadores da inteligência humana. Freqüentar esses ambientes propiciadores de elucubrações transcendentais tornou-se ultimamente um venturoso ato - a comprovação definitiva de que hoje os artistas não trabalham mais unicamente para obter a admiração dos próprios artistas.

6 - O Artista é soberano.

A crescente conscientização profissional justifica esta afirmação. Historicamente organizados em corporações, os artistas plásticos notabilizaram-se pela capacidade de união. Diante das questões impostas pelo mercado, sempre solidários, dificilmente deixam-se submeter-se a regras comprometedoras da qualidade de seus trabalhos. Por isso mesmo, fugindo às tentações, são tão intransigentes quando negociam preços e exposições. E só trabalham gratuitamente em função de causas sociais superiores, beneficentes. O sentimento do viver comunitário, a tolerância para com os iniciantes do real valor de sua produção contam muito para que sejam respeitados pelos profissionais das áreas adjacentes.
Todos sabem que o artista, produtor intelectual e manufatural da obra, é o componente mais importante na hierarquia das instituições culturais. É soberano. Por isso, o jovem artista não precisa sentir-se constrangido ao procurar espaços para mostrar os seus trabalhos, pois ele representa a força que movimenta toda a entourage.

Dificuldades sempre existirão para aqueles que não conseguem vencer a timidez e jamais mostram o que fazem. Do contrario, estará sempre à sua espera o sorriso acolhedor de profissionais de formação inquestionável (alguns especializados na Sorbonne em boas maneiras). A recepção ao trabalho é rápida, atenciosa e respeitosa. A presteza transparece nos gestos e o conhecimento do métier revela-se nas agudas observações do processo de composição. Comentários denotativos de vasto repertório literário e visual (provavelmente extraído da leitura noturna de colunas sociais) desvelam um sentido crítico apurado. E, se ocasionalmente evidenciarem-se qualidades duvidosas na obra apresentada, a civilidade é incontinente. Podem perfeitamente, num ato de cortesia, apontar as inadequações do trabalho às tendências usualmente expostas naquele espaço. Ou, polidamente, indicar outros caminhos.

Ao se deparar com essas recusas, o artista não deve desistir, pois o que importa mesmo é a perseverança. Deve esperar. Se o reconhecimento não acontecer em vida, não importa. A verdade, um dia, prevalecerá!

7 - A peneira do tempo é sábia.

As adversidades serão justamente compensadas. Alguns nomes das listas telefônicas de assinantes passarão, um dia destes, a encabeçar as de endereços. A eternidade então estará escrita para sempre numa placa enferrujada, no fim de uma rua, na virada de um outro século. E, se por ansiedade ou qualquer outro motivo o artista quiser reverter essa situação, ficam aqui algumas indicações do que não deve fazer: pensar - já existe quem o faça; aprofundar-se - o superficial é de fácil assimilação; demonstrar na obra intenções didáticas - é desnecessário, já que se vive numa situação cultural de Primeiro Mundo; fazer referencias poéticas ou reivindicar - sinais de engajamento são retrógrados; interferir na realidade - será acusado de não exercitar a fantasia; desenvolver uma linguagem individualizada - estará fora do estilo internacional; utilizar-se da temática regionalista - pode indicar ignorância ou xenofobia; fazer analogias literárias (apesar de toda pintura britânica) - só se permitem as musicais; vender trabalhos - será considerado artista comercial; não vender trabalhos - será considerado artista institucional; deixar de evidenciar, às vezes até de maneira histérica, o gesto pictural - transmitira ausência de espontaneidade; cortar as orelhar - isto já foi feito; e, principalmente, manifestar senso de humor.

Humor é irreverência. Irreverência é sinônimo de inconformismo. Inconformismo facilmente se confunde com sentimento de frustração no ideário obtuso daqueles que se formaram durante o autoritarismo. É sombria essa concepção de mundo que minimiza o viver lúdico em favor de uma postura pretensamente imbuída de seriedade - como se tudo perdesse a grandeza sob a fina ótica da ironia. O discurso austero, mas vazio, de quem nem sempre tem algo importante para comunicar aos outros presta geralmente um desserviço à História. Sabe-se hoje que grandes fatos foram registrados num tom de severidade simplesmente para obscurecer situações verdadeiramente cômicas. E o que permanece, talvez temporariamente, é a visão difusa de acontecimentos encobertos por grandes sombras.


It's all true.

Durante um eclipse total, tudo e todos desaparecem por instantes. Uma falsa noite se instaura, transformando a paisagem em pequenos e indefinidos sinais. As montanhas, os caminhos, as casas, os seres, os sons e as palavras subitamente imergem na massa informe do desconhecido. Dos contornos das coisas restam apenas fragmentos que se confundem e se aglutinam, rabiscando a escuridão. E o universo, agora sem limites, resume-se a algumas estrelas solitárias que ensaiam uma curta aparição no céu. Mesmo assim elas tentem, ainda que por breves momentos, iluminar o que muitos pensam ser a realidade.

 

 
 
 
Ana Cláudia Roso - Escritório de Arte
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