Paixão
e Método
Renina Katz tem suas paixões, poucas, diretas
e insubstituíveis. Nos longos anos que acompanho
a execução de seus trabalhos sempre me
foi repetida a importância artística que
ela atribui aos gravadores Piranesi, Goya e Rembrandt.
Isolados como esses, poucos artistas pesquisam traço
a traço, massas de luz e a estrutura das composições.
Artista continua redescobrindo e se encantando com a
obra desses companheiros da gravura. Companheiros. Porque
ela já conquistou assento ao lado desses mestres,
uma vez que se assenhora dos meios técnicos da
profunda historia da gravura e já tem definida
uma expressão plástica que desnuda o seu
universo sensorial.
Sempre
envolvida com o aperfeiçoamento das diversas
fases do trabalho, Renina aplica-se de tal maneira discreta
e precisa aos nossos olhos, até parecendo, em
dado instante que houve uma intervenção
imanente do seu gesto criador, livre do manuseio físico
sobre a chapa de gravura.
Toda
a sua obra relata indiscutível qualidade técnica
e a segurança profissional no desempenho da gravura.
Estes são os suportes insubstituíveis
da expressão da sensibilidade artística
de Renina, também geradora do aprendizado de
dezenas de jovens da Universidade de São Paulo.
Muitas teses e doutorados têm a grife dessa compreensiva
analista da arte. Bom lembrar que ela provocou na apresentação
e na defesa de teses universitárias, a exibição
das obras de arte criadas e expostas pelos doutorandos.
A
irredutível Renina trabalha apenas com a presença
ou ausência de luz. E, será na implicada
relação entre o branco e o negro que ela
se entrega às obras de água-forte da presente
mostra.
Nos
locais públicos e, em especial nas exposições
não é difícil presenciar pessoas
intrigadas com o desdobramento das formas e das linhas
das composições plásticas. No contorno
sobreposto a um espaço, um traço, sinuoso,
atravessa parte do papel insinuando o Sol e a Lua, referência
ao ciclo, ao movimento, contínuo. Muitas das
gravuras da artista sugerem que uma área negra
pode dominar o fundo branco do papel ou até,
o contrário, cria áreas de composição
brancas. Sempre haverá um jogo visual que serve
à construção da obra. Aqui esta
definida a delicada capacidade sensorial dessa artista
traçando das correlações entre
fundo e figura. Fogo Fátuo, Fênix, Montanha
e Mar, ou um Lago, representam algumas das figuras que
correspondem aos trabalhos representados na galeria.
No
passado, Renina Katz fez obras que tratam da realidade
aparente, destacando-se as do realismo social. Mais
tarde, ela inicia vibrante produção de
pinturas, gravuras e aquarelas abstratas. A bem dizer,
as água-fortes atuais não retornam ao
realismo mas se aproximam bastante de uma versão
livre das imagens, revestidas de belas figuras e de
traços sintetizados, oriundos do repertório
visual e comum da vida.
Nas
gravuras que domina magistralmente, poia-se em um repertório
estético, acumulado nos tantos anos de trabalho.
Compõe um inventário de formas e linhas
para a construção da sua própria
linguagem, substituindo com propriedade os conhecidos
jargões da realidade aparente.
Radha Abramo – SP 23/7/2002
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Em seu texto MANET, O ENIGMA DO OLHAR, Jorge Coli nos
ensina a ver o negro como a cor da modernidade, como
constitutivo comum de todas as cores” –
assim como nos ensina – “a ver o negro em
sua autonomia através de nuanças incontáveis
de brilho e de densidade”. A ele, Jorge, dedico
esta série de gravuras todas em negro. Renina
Katz - 2002
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