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Para Marcello Nitsche
A
beleza nas obras de Marcello Nitsche está nas
razões que animam a técnica com que são
feitas.
Estas técnicas, que o artista domina de forma
invejável, são exigidas pelas suas idéias
sobre o que fazer para dizer o que se pretende.
E o que dizem é um discurso intrigante e belíssimo
sobre as virtudes da natureza. Emoção
surpreendente e reveladora sobre os fenômenos
da natureza, discurso sobre o conhecimento, intrigante,
insubstituível. Um doce e suspirado olhar sobre
as origens e o eterno inacabamento da formação
da consciência e da linguagem. Os caminhos do
homem no universo.
Os infláveis, o cubo desenhado com nuvens claras
no céu azul.... cada um é um modo de repetir
formas nunca construídas assim antes. Mecânica
dos fluidos, capilaridade, tensão superficial,
momentos da matéria, natureza surpreendida para
revelar novas formas de conhecer, novas configurações
daquela mesma aparente sempre naturea que agora já
não é o que simulava.
Ciência e técnica desenhadas em linguagens
inventadas sob a forma artística.
Marcello é o mestre da liberdade. Aquele que
escreve com ar. Na Bienal Brasil Século XX agora
no pavilhão da Bienal do Ibirapuera, Marcello
é uma claridade no recinto.
“Aliança para o Progresso” de 1965
liquida e o grande cinza-preto-vermelho inflado diz
de uma inteligência que quando pensa já
costura, constrói.
Nestas pinturas murais, grandes pincéis, tinta
espessa sobre parede, o peso da tinta contido nas cerdas
quando se movem com o corpo do escritor desfiam toda
da técnica que temos usado para dizer.
Não são imprevistos, são previsões
dizendo: quando eu trabalho durante todo o tempo durante
todo o tempo vai surgindo uma novidade trabalhada. O
que se passa lá no interior dos espaços
entre as moléculas, as suspensões, as
forças de um universo inteiro de fenômenos,
descritos.
Contemplando estes rabiscos podemos ser possuídos
por um prazer inesperado, uma visão erótica
da vida e do trabalho. Dimensão humana da natureza
tornada virtuosa...
Marcello Nitsche é um maestro da liberdade.
Paulo
A. Mendes da Rocha
São Paulo, 8 de maio de 1994
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