|
Quando
pinto sempre fico a mercê da forma de pensar da
minha comunidade.
Pois assim, construo aos poucos uma obra que se pretende
universal e não um produto internacional.
As características de uma região podem
tocar um individuo de qualquer outro ponto do planeta
sem recorrer a linguagem vigente da época
Paulo
Sayeg
São Paulo, 1985
Normalmente
quando jovens ficamos impressionados com sons imagens
cheiros que soa de forma inequívoca o retrato
que levamos do mundo no decorrer de nossa vida. Claro
que as memórias destas situações
são alteradas pelas experiências que temos
em seguida. E no caso de um artista estas mesmas memórias
se tornam extremamente maleáveis ,pois como instrumento
de trabalho elas tomam rumos diversos e originais.
No meu caso em especifico são narrativas gráficas
que ganharam espaço minha obra ,podem ser lidos
e vistos como uma transmutação dos sonhos
ou também uma espécie de diário
não objetivo, e agora sinto a necessidade de
reunir os últimos vinte anos de atividade gráfica
em um livro ,transformar estes conjuntos de imagens
em algo que possa ser apreciado. Alem do fato que no
Brasil embora tenhamos uma infensa atividade gráfica
ainda não dispomos de uma literatura sobre o
fato ,poucos são os artista registrados em livros
que são eminentemente desenhistas ou aquarelistas
,aqueles que trabalham com o primeiro empuxo da sensibilidade
e que muitas vezes se assemelha mais ao escritor que
ao pintor,não pretendo aqui fazer uma lista destes
artistas pois seria interminável a tarefa.
Quando tive o primeiro vislumbre deste livro eu estava
preparando uma exposição na pinacoteca
do estado a própria seqüência das
imagens se enquadravam em um ordem de leitura, elas
evoluíam uma buscava a leitura da outra, acho
que nunca tive um exemplo tão bom como aquele
do real destino dos meus desenhos ,com o passar do tempo
o conceito foi passando do subjetivo para o pratico
do mental para o material e agora que os procedimentos
estão em andamento para a execução
do projeto ando tendo a mesma experiência da exposição
,tendo a chance de observar a extensão da narrativa
que desenvolvia no decorrer destes vinte anos de atividade
como artista e da importância deste elemento gráfico
na minha obra
Paulo Sayeg
10 3 2001
Aos
que nunca viram um Sayeg, aconselho não desperdiçar
a oportunidade. O homem despertou com ânimo renovado
e despeja, nas 34 telas expostas o estilo inconfundível
que reconhece Michelangelo. Está imperdível.
Artista raro no panorama nacional, mescla com extrema
habilidade os traços per feitos de desenhista
nato, com a crueza de tintas vivas, que saltam aos olhos
avolumam os corpos magistralmente impressos, encarnados,
rutilantes.
Impassividade é palavra ausente de quem se detém
diante de seus quadros. Semblantes invariavelmente crispados
debatem-se contra traços e cores (elemento excessivo),
escorrendo do pincel do artista por pura obrigação.
Poe ele, manteria a linha intacta, imaculada, soberana,
mas, o conflito intimamente arquitetado – fruto
de desejo pungente – da angustia contra a sanha
e contra a alegria é ajaezado na presença
das cores, avessas, mas imprescindíveis.
É assim, em eterno embate e sempre através
do traço, que o pintor constrói, um por
um, seus quadros. O processo de criação
nasce doloroso: uma tela, um parto. Intricado, porem
conciso, ele expõe, isento e verdadeiro, um pedaço
irresistível da alma, advinda da mistura imprevisível
de sangue árabe e calabrês.
Entretanto, nada que exibe vem sem sustentação.
Dono de técnica precisa e de conhecimento teórico
invejável despreza construções
levianas e efêmeras. A estética de sua
arte está na longevidade. Um Sayeg reverbera,
enfim, o conceito inatacável de beleza: a eternidade.
Em qualquer tempo, possui o raro condão de provocar
sensações inesperadas, sempre.
André
Rosemberg
1997
Amista
plástico, louco, sensível, contido, expansivo,
neurótico, desenhista, amante, budista, bundista,
católico, mulçumano, amigo, equilibrado,
enfim um homem, que tem como objetivo, nos fazer ver
um mundo, por uma ótica própria e com
um prazer típico, dos que dão e faz do
“Dar” uma profissão, portanto um
Amista.
Seus desenhos me fazem viajar num, mundo tipicamente
humano, louco, burguês, tarado, onde a linha designa
aquilo que se supõe.
Paulo Sayeg, deveria sempre, nos presentear com seus
planos gráficos, com o lógico, pois assim
foi ensinado, mas o Amista se nega e nos faz viajar
numa antilógica dos planos, dos traços,
dos abraços, da força, do contido.
Tido
Tudo
Do amor lavado a seco
Na se ca
De uma esponja que abunda,
Onde a bunda
É a maça da fome,
E onde o traço me come.
Isto é Paulo Sayeg.
Gilberto Salvador
São Paulo, 19.10.84
“Sonhar
e ver concordam pouco: quem sonha muito livremente perde
o olhar; quem desenha excessivamente bem o que vê
perde os sonhos da profundidade.’’ Esse
comentário de Gaston Bachelard ilustra com incisiva
simplicidade um dilema que há tempo inquieta
os artistas.
Mas sonhar e ver não são necessariamente
inconciliáveis. Quantos encontraram ou se aproximaram
de respostas equilibradas para tão complexa questão?
Por certo foram poucos. Nem por isso o número
dos que se aventuraram ou estão se aventurando
diminuiu. O desafio permanece instigante, é atemporal
– sempre persiste a busca de um intercâmbio
afinado, um feedback entre ver e imaginar direcionado
à elaboração de um projeto artístico.
Paulo
Sayeg optou por esse difícil caminho. Ele é
um atento e silencioso observador do cotidiano, da realidade
imediata que o cerca, da qual sabe extrair matéria-prima
para seu trabalho. Investigar e apreender imagens próximas
poderia tê-lo conduzido à objetividade
fria de um registrador mecânico, anulando qualquer
força e calor da imaginação. Por
outro lado, simplesmente imaginar poderia tê-lo
aprisionado numa subjetividade vazia, como um visionário
que perambula num beco sem saída. Sayeg não
caiu nessas armadilhas. Ao contrario, estabeleceu diretrizes
que estão cada vez mais se tornando vigorosas,
Ele está em pleno processo de construção
de seu próprio binômio ver-fantasiar: basta
verificar as ricas soluções plásticas
de seus desenhos, onde há um sutil jogo de imagens
que ora se revelam e ora se abstraem, criando atmosferas
misteriosas.
Ao
primeiro contato, é muito difícil perceber
o universo formal de Paulo Sayeg, que, de imediato,
não seduz. É preciso insistir, olhar novamente
e tornar a olhar, afastando uma sensação
incômoda, um estranhamento quase que inevitável.
Na verdade, o choque inicial resulta do caráter
ácido de grande parte das composições:
há uma necessidade de expor e questionar a angustiante
realidade contemporânea, sem qualquer tipo de
subterfúgio, de modo cru e direto. Produzindo
situações sob forte conflito e tensão,
tudo acaba lhe servindo de pretexto para atingir sua
meta – desde imagens banais, como figuras humanas
e animais, até as mais fantásticas, como
seres e tempestades.
A
linguagem plástica de Sayeg se caracteriza pela
profusão de elementos; entretanto, não
atinge o excesso, o que poderia vir a ser um problema.
Existe sempre a necessidade de utilizar muitos registros
gráficos que vão se acumulando e se sobrepondo
na definição das formas. Um grafismo irrequieto
e pulsante, marcadamente pessoal, determina o clima
contundente das soluções. Nota-se que,
em relação às suas experiências
anteriores, os desenhos estão mais despojados
quanto à cor: agora são mais do que nunca
puramente estruturais; sem a participação
de muitas cores que, em alguns dos antigos trabalhos,
não resultavam em ganho qualitativo.
Espontaneamente
construído sobre o papel, o traçado assinala
o vertiginoso processo que ele experimenta quando está
desenhando. Manifesta-se uma obsessão desmedida
pelo fazer, pelo incessante exercício de pesquisa
como meio de depuração das idéias.
Em alguns trabalhos, aproxima-se do limite máximo
das possibilidades, mesmo sob o risco de anular os objetivos
pretendidos. As estruturas começam a ficar intrincadas
e labirínticas ao extremo, prestes a comprometer
os propósitos – torna-se evidente que o
artista quis prolongar seu fluxo de criação,
chegando às ultimas conseqüências.
Afinal, seu maior interesse é desenhar muito,
permanentemente; os excelentes resultados que atinge
são conseqüências naturais de tamanha
obstinação.
Guilherme Mazza Dourado
São Paulo, 1993
O COMEDOR DE GORDURA DO PARAÍSO
-
Olha, hoje não estou bem – declara a figura.
- Estou trabalhando o tempo todo, explodindo os lápis,
manchando os papéis Fabriano (utilizando técnicas
de todos os tipos), mas meu espaço é muito
pequeno e o cheiro da tinta faz perder meu paladar –
isto é, estavam servindo uma salada de agrião...
O pintor grande e desajeitado com a salada em sua frente,
continuava a insistir em contar seu pluralismo e sua
agonia de traçar todas as linhas nos papeis.
Chega então à mesa uma costela e uma picanha
30 x 20 cm cada uma. Fiquei surpreso: o Pintor sem paladar
começou a devorar sem nenhum preconceito grandes
placas de gordura apreciando sensivelmente os detalhes.
Melhorou imediatamente de aspecto e falou de suas telas
grandes sem chassis que esperava colocar em algum lugar.
Senti que o café da manhã o inspira ao
gráfico e o almoço à pintura. Após
essa orgia fomos ver uma série de desenhos e
fiquei entusiasmado. Pude entender quase tudo: mulheres
= devoradoras de pernis = I like frango. Mas também
faz aquarelas olhem prestem atenção meus
amigos, comprem logo seus desenhos antes que ele possa
come-los todos com um pouquinho de azeite. Trata-se
de artista de 25 anos, artista anti-curricular –
talentoso, rico em suas pesquisas.
Trabalha sensivelmente com todas as técnicas
e não está preso à geração
dos pintores que só pintam expressionismo, logo
não é um pintor da fase tok – Stok.
Ativa bastante o seu lado bem-humorado e traz aparentemente
o aspecto do Pintor Pós-Moderno.
Uma figura Bukowskiana.
Ivald Granato
São Paulo, abril de 19985
Nação
Alquímica de Paulo Sayeg
Vamos
brincar de bicho-papão? Ou vamos brincar de começo
do mundo. Porque no princípio era o caos &
o caos estava habitado por monstros informes.
Perigoso início onde toda forma está contida,
bastando puxar os fios da meada.
Para onde leva este começo de mundo?
Mistério. Em que tudo pode ser isto, mas também
seu oposto. O caos, mas também o começo
da criação. São convites dúbios
que a Nação de Paulo Sayeg pode fazer.
Serpente mostrando a maçã. Semente ou
pecado? Semente & pecado.
A Nação de Paulo Sayeg fala da perversão
histórias cabeludas, nos dois sentidos. Cheios
de pêlos que se desenrolam infinitamente obscenos.
Ou se misturam em pelotas enigmáticas. Feios
fantasmas do inconsciente.
Seres em cápsulas espaciais, boiando a deriva,
que atacam de repente.
Inocentes & brutais. Um pouco demônios, um
pouco escafandristas. Nesta Nação vivem
seres de feições incompletas.
Mas podem estar apenas usando máscaras, aquelas
de couro negro do ritual sadomasoquista, que impõe
anonimato. Ou a primazia do simbólico.
Nesta Nação: polvos-cogumelos, mas também
órgãos que se autopentram. Monstros medonhos,
em clima de pesadelo: aliens que saltam & nos assaltam
por todos os lados. Mas também fantasias, puras
fantasias carnavalescas.
Engraçadas ou, no mínimo, paródias
de monstros de pesadelo. Desenho & escritura. Personagens
de histórias em quadrinhos, mas também
grafismos, puro rabisco de histórias escabrosas
a serem decifradas.
Que obsessões contariam esses textos indecifráveis
da Nação de Paulo Sayeg?
Desejos. Desejos que se escrevem sobre o corpo, como
no filme de Peter Greeneway. Perigosamente inscreve-se
o amor no corpo. Com excesso & proporcionalidade.
Personagens que enrolam & desenrolam. Cordas do
sacrifício final ou cordões umbilicais
do parto?
Nesta Nação, há monstros tentaculares
que remetem sim ao medo que remete à dor e à
morte. Como os demônios que nos habitam, porque
há dor e morte ancoradas dentro de nós.
O eu se escancara à perigosa vida. Viver é
horripilante. Dói. Nesta Nação:
enfrentam-se os demônios interiores como violação
sistemática do eu. Pura alquimia: tirar da dor
a alegria não é a função
de existir?
O processo interior como alambique de transformação
que leva ao embriagamento. Viver é embriagante.
Reluz.
Encarar o medo para ilumina-lo.
Na Nação de Paulo Sayeg, Máster
& Mestre-de-cerimônias, faz-se o aprendizado
da dor & da beleza. Puro mistério para onde
convergem os contrários. Por acaso haverá
algum sentido no Mistério?
Então, chega de saudade. Chega de perguntas,
pó.
João
Silvério Trevisan
São Paulo, 1998
SAYEG O CARA NÃO TEM JEITO
Paulo
Sayeg não existe. Caso não fosse a ficção
que o é, não prestaria. Ele é fruto
da criação de Paulo Eduardo, esse sim
um cidadão com rg, cpf e endereço fixo:
saído do Cambuci, aportou na cultura brasileira
com uma visão urbana, sotaque urbano cosmopolita
e tintura urbana metropolitana. Por isso teve de inventar
Paulo Sayeg, seu alter-ego.
Explica-se: quando há anos eu precisei de um
diretor de arte na Companhia Lazuli, achei que esse
profissional deveria ser não um cidadão
gráfico, mas plástico, por acreditar que
as artes plásticas, no espectro cultural brasileiro,
é o setor mais bem informado e inquieto, só
comparado à boa poesia pátria dos 50 (Drummond
e Bandeira, Murilo Mendes, João Cabral de Mello
Neto, Jorge Lima).
Será que estou errado? Não, definitivamente
não. No Brasil, sempre foram as artes plásticas
que detonaram a estética passadista, na expressão
de Mário de Andrade. Na Semana de Arte Moderna,
lá estavam Di Cavalcanti, Rego Monteiro e, numa
menor escala, Anita e Tarsila; correndo por fora, a
provocação maravilhosa de Manuel Bandeira,
que mais tarde daria nas seminais oswaldianas. Cortando
o tempo, veremos Helio Oiticica dando nome ao Tropicalismo;
também por fora, a poesia de Torquato Neto musicada
pelos baianos. Bem, se pegarmos carona nas inquietações
semelhantes de Mário Faustino, isso dá
um ensaio e aqui não é o espaço
mais apropriado. Sigamos. Daí que Paulo Sayeg
trazia o embrião mais rebelde da geração
paulistana dos 80. Afinal, o cara sabia desenhar, sabia
a diferença entre pátina e veladura, sabia
que a cor pode ser usada para simular volume, e não
apenas altura, e tinha ainda a inquietação
deprimida dos inconformados e descontentes. Era alguém
assim que eu queria a meu lado.
A pintura de Sayeg, assim como sua constante performance,
é um emaranhar-se dentro de signos, referências,
deglutições, colagens e vivência
urbana. Ali você olha e percebe os esboços
de Michelangelo, os expressionistas alemães,
um pouco do horror de Munch, os néons opacos
de Goeldi e mesmo as cores angustiadas e nebulosas de
Flávio-Shiró.
Em primeiro lugar, a pintura figurativa-radical de Sayeg
esconde e dissimula um exímio desenhista –
algo que se perdeu em algum canto da sala brasileira,
hoje, tornado fora de moda pelos críticos conceituais
e religiosos, adeptos de uma arte próxima à
mesa asséptica de operação: um
bisturi, e não um pincel, é o ícone.
Sayeg não padece dessa lobotomia, ao contrário:
sua destruição da figura é estudada,
não intuitiva; é ideológica, não
populista.
Depois, Sayeg é um artista de tintura medieval.
No sentido pleno da definição. Ele acredita
na necessidade de o criador possuir uma visão
de mundo, mesmo que seja equivocada, e a colocar expressa
em sua obra. Nada de abarcar discursos alheios ou mesmo
modismos espúrios soprados na mídia ou
na academia, nada disso: sua autenticidade o impede
de falsas cumplicidades, de arranjos ou simpatias acomodadas.
O cara perde o elogio prometido, mas faz a piada e não
se deixa cooptar pelas aparências. Seu mundo é
bastante conturbado (basta se ver os nomes listados
acima, como seus inspiradores), onde o homem não
parece merecer muita confiança pelo resultado
de sua obra cotidiana, talvez digamos destruição
premeditada, e onde sua pintura vai desmanchando esse
sonho de alumiar no instante em que o flagra sempre
mais distante de seu paraíso original.
É como se dissesse que o homem não tem
mais jeito.
Como todo grande artista, podemos discordar de sua visão.
Nunca ignora-la, sob pena de integrarmos um malfado
índex de imbecis.
Miguel
de Almeida
Jornalista e Editor da Revista E do Sesc
1997
Paulo
Sayeg em Plena Luta
“Nunca tive facilidade para o desenho. Tive paixão,
o que é muito diferente”. Essa frase me
foi dita, há mais de dez anos, por ninguém
menos que Marcello Grassmann. Quer dizer que, surpreendentemente,
todo o virtuosismo de traço desse grande mestre
da gravura e do desenho brasileiros, toda sua fluência,
a aparente naturalidade com que as formas brotam elegantemente
de sua mão, são o resultado de uma vitória
arduamente conquistada – e não uma dádiva
dos deuses.
O
caso de Paulo Sayeg me lembra, inevitavelmente, a confidência
de Grassmann. Também aqui estamos diante de um
artista que não tem o que eu considero facilidade
natural para o desenho. As exposições
mais antigas de Sayeg não revelam, nele, a existência
de um super dotado, cujos olhos e mãos dão
a impressão de trabalharem por si mesmo. Revelam
a batalha pelo domínio de uma linguagem expressiva
que seja, ao mesmo tempo, eficaz e pessoal. E essa batalha
vem ligada a uma necessidade catártica conscientemente
assumida pelo próprio artista. Se Grassmann teve
paixão pelo desenho, Sayeg tem, sem a menor sombra
de duvida, uma verdadeira obsessão.
Daí
o caráter compulsivo – sob diversos aspectos
– de seu trabalho. Sayeg começou a desenhar
e pintar aos 8 anos, e teve, ainda na adolescência,
uma formação completa e artesanal em varias
técnicas. “Cheguei a ser um razoável
pintor acadêmico’’, ele assegura.
Mais tarde, trabalhou em todas as áreas onde
pudesse exercitar sua vocação: publicidade,
ilustração, desenho animado, cartazes,
programação visual. Desde os 15 anos,
entretanto, executava também alguns desenhos
rápidos, exorcistas, intrincados, relacionados
com a informação visual que encontrava
a seu redor, e que incluía a escrita e os arabescos
dos missais ortodoxomelquista da família. Essa
ancestrabilidade árabe se mantém ainda
hoje, a meu ver, em alguns gestos, e na superabundância
que caracteriza a linguagem de Sayeg.
A
superabundância se revela também num outro
aspecto: o da intensidade da produção.
Sayeg Trabalha como louco, dia e noite, sem fazer mais
coisa nenhuma. “Às vezes, acho que estou
esquecendo de viver. Mas viver para mim é isso
mesmo’’, diz ele. Das centenas de desenhos
que brotam visceralmente (o que não significa
falta d controle: os trabalhos aparentemente mais rápidos
são, às vezes, os mais lentos, pois Sayeg
fica olhando e convivendo com eles para descobrir as
soluções), do conjunto de trabalhos ele
acaba mostrando só uma pequena quantidade: uns
30 por cento. O resto são como os andaimes para
construção de seu edifício.
“É
um edifício que se faz pedra por pedra. Dá
vazão a angustias metafísicas, a fantasias
(basta ver a produção erótica,
que também se reporta a tradição
árabe), a pulsões, e a uma visão
do mundo meio pessimista: “Não encontro
muito sentido nas relações humanas’’,
afirma Sayeg – que, apesar disso, está
atravessando um momento integrado e feliz de sua vida
pessoal. Mas é para compensar a falta de sentido
último da existência que ele busca sentido
na arte e mergulha nela de cabeça.
Aos 27 anos, pode-se assegurar que Sayeg está
em plena luta pelo crescimento, como ser humano e como
artista. É uma luta inesgotável e insana,
mas quem entra nela não tem saída. Vai
diariamente carregar a sua pedra, como Sísifo.
Fazer arte e querer negar a morte. E algumas pessoas
nasceram marcadas com esse carma.
Olívio Tavares de Araújo
São Paulo, 12 de nov.1987
Desenhista
compulsivo, criativo e intenso, de uma versatilidade
de traço assustadora, Paulo Sayeg foi professor
de toda uma geração de jovens artistas
da cidade de São Paulo, sendo influencia clássica
entre os amantes do desenho.
Siegbert Franklin
2004
Alguém escrever que para refletir sobre certas
obras, é impossível não levar em
conta o artista que as elaborou, notadamente aquelas
cujo ponto central de sua gênese está no
embate entre o artista e a matéria. Este é
o caso de Paulo Sayeg. Sayeg é um inconformado.
Inconformado com a situação atual do homem,
da sociedade e com a própria ausência de
significado que vê na existência do artista
hoje em dia.
Esse inconformismo gerou na personalidade de Sayeg uma
violência subjacente a todos os seus atos. Um
nervosismo nos gestos cotidianos, no fluxo tenso de
sua conversa... Conviver com Sayeg é experimentar
a inadaptação personificada.
“A única maneira de violentar alguma coisa
com intensidade é no meu trabalho. Lá
solto minha violência lá eu reajo...”
Este testemunho do artista coloca seus desenhos e pinturas
como extensões de sua personalidade, ao mesmo
tempo que coloca numa “freqüência sensível”
onde atuaram e atuam artistas de interesse. Impossível,
ao ler esse testemunho de Sayeg, não recordar
um depoimento de Vlaminck sobre sua pintura: “O
que na sociedade só poderia ter feito soltando
uma bomba..., tentei realizá-lo na arte, na pintura...
Satisfez minha vontade de destruir, de desobedecer,
a fim de recriar um mundo sensível, vivo e alegre...”
Aproximar Sayeg de Vlaminck e conseqüentemente,
da “freqüência expressionista”
do inicio do século, só não será
uma ação de êxito completo pelo
fato de faltar ao primeiro a crença na arte como
passível de transformar o mundo. Para ele, “o
pintor e uma figura do museu”, ou seja, um individuo
cujas funções de sua profissão
foram superadas historicamente.
Das primeiras tendências expressionistas do século
teria ficado em Sayeg o desespero e a violência
frente ao mundo, não a noção regeneradora
da arte. Se em suas pinturas anteriores a violência
do gesto parecia ainda refreada pela obediência
a definição da figura em relação
ao fundo se o gestualismo nervoso de seu pincel ainda
respeitava os limites da forma—ou seja, se antes
era possível perceber um “algo a dizer”
a partir do estabelecimento de um código compartilhavel
com o outro – nota-se na produção
que Sayeg agora apresenta na galeria Paulo prado uma
tendência a explosão de qualquer codificação
formal. O artista parece agora abandonar os pontos de
contato entre sua produção e a dos antigos
“fauves”, deixando prevalecer apenas sua
intencionalidade operativa aproximando-se das “poéticas
do incomunicável” [argan], dos actions-panters
norte americanos.
Já não se percebe em seus trabalhos atuais,
com tanta nitides a construção ou o desejo
de construção de um código decifrável.
O espectador agora precisa desvelar por entre manchas
, texturas e pinceladas obsessivas, as formas iniciais
do discurso que detonou cada trabalho, mas que o artista
recusou-se a clarear, pela ação que sobrepôs
as mesmas, como se desejasse extinguir qualquer possibilidade
de velas relacionando se com o exterior.para uma reflexão
sobre a produção atual de sayeg não
se deve mais perguntar “o que o artista desejou
dizer com isso?”,
mas, “o que o levou a agir assim sobre a tela?”
parafraseando Argan no caso de sayeg não cabe
agora ao artista dizer o que faz no e pelo mundo mas
anos dar um sentido aquilo que faz.
Tadeu Chierelli
1988
|