(São Paulo, 1960)
     

Quando pinto sempre fico a mercê da forma de pensar da minha comunidade.
Pois assim, construo aos poucos uma obra que se pretende universal e não um produto internacional.
As características de uma região podem tocar um individuo de qualquer outro ponto do planeta sem recorrer a linguagem vigente da época

Paulo Sayeg
São Paulo, 1985

Normalmente quando jovens ficamos impressionados com sons imagens cheiros que soa de forma inequívoca o retrato que levamos do mundo no decorrer de nossa vida. Claro que as memórias destas situações são alteradas pelas experiências que temos em seguida. E no caso de um artista estas mesmas memórias se tornam extremamente maleáveis ,pois como instrumento de trabalho elas tomam rumos diversos e originais.

No meu caso em especifico são narrativas gráficas que ganharam espaço minha obra ,podem ser lidos e vistos como uma transmutação dos sonhos ou também uma espécie de diário não objetivo, e agora sinto a necessidade de reunir os últimos vinte anos de atividade gráfica em um livro ,transformar estes conjuntos de imagens em algo que possa ser apreciado. Alem do fato que no Brasil embora tenhamos uma infensa atividade gráfica ainda não dispomos de uma literatura sobre o fato ,poucos são os artista registrados em livros que são eminentemente desenhistas ou aquarelistas ,aqueles que trabalham com o primeiro empuxo da sensibilidade e que muitas vezes se assemelha mais ao escritor que ao pintor,não pretendo aqui fazer uma lista destes artistas pois seria interminável a tarefa.

Quando tive o primeiro vislumbre deste livro eu estava preparando uma exposição na pinacoteca do estado a própria seqüência das imagens se enquadravam em um ordem de leitura, elas evoluíam uma buscava a leitura da outra, acho que nunca tive um exemplo tão bom como aquele do real destino dos meus desenhos ,com o passar do tempo o conceito foi passando do subjetivo para o pratico do mental para o material e agora que os procedimentos estão em andamento para a execução do projeto ando tendo a mesma experiência da exposição ,tendo a chance de observar a extensão da narrativa que desenvolvia no decorrer destes vinte anos de atividade como artista e da importância deste elemento gráfico na minha obra

Paulo Sayeg
10 3 2001

Aos que nunca viram um Sayeg, aconselho não desperdiçar a oportunidade. O homem despertou com ânimo renovado e despeja, nas 34 telas expostas o estilo inconfundível que reconhece Michelangelo. Está imperdível.

Artista raro no panorama nacional, mescla com extrema habilidade os traços per feitos de desenhista nato, com a crueza de tintas vivas, que saltam aos olhos avolumam os corpos magistralmente impressos, encarnados, rutilantes.

Impassividade é palavra ausente de quem se detém diante de seus quadros. Semblantes invariavelmente crispados debatem-se contra traços e cores (elemento excessivo), escorrendo do pincel do artista por pura obrigação. Poe ele, manteria a linha intacta, imaculada, soberana, mas, o conflito intimamente arquitetado – fruto de desejo pungente – da angustia contra a sanha e contra a alegria é ajaezado na presença das cores, avessas, mas imprescindíveis.

É assim, em eterno embate e sempre através do traço, que o pintor constrói, um por um, seus quadros. O processo de criação nasce doloroso: uma tela, um parto. Intricado, porem conciso, ele expõe, isento e verdadeiro, um pedaço irresistível da alma, advinda da mistura imprevisível de sangue árabe e calabrês.

Entretanto, nada que exibe vem sem sustentação. Dono de técnica precisa e de conhecimento teórico invejável despreza construções levianas e efêmeras. A estética de sua arte está na longevidade. Um Sayeg reverbera, enfim, o conceito inatacável de beleza: a eternidade.

Em qualquer tempo, possui o raro condão de provocar sensações inesperadas, sempre.

André Rosemberg
1997

Amista plástico, louco, sensível, contido, expansivo, neurótico, desenhista, amante, budista, bundista, católico, mulçumano, amigo, equilibrado, enfim um homem, que tem como objetivo, nos fazer ver um mundo, por uma ótica própria e com um prazer típico, dos que dão e faz do “Dar” uma profissão, portanto um Amista.

Seus desenhos me fazem viajar num, mundo tipicamente humano, louco, burguês, tarado, onde a linha designa aquilo que se supõe.
Paulo Sayeg, deveria sempre, nos presentear com seus planos gráficos, com o lógico, pois assim foi ensinado, mas o Amista se nega e nos faz viajar numa antilógica dos planos, dos traços, dos abraços, da força, do contido.

Tido
Tudo
Do amor lavado a seco
Na se ca
De uma esponja que abunda,
Onde a bunda
É a maça da fome,
E onde o traço me come.
Isto é Paulo Sayeg.


Gilberto Salvador
São Paulo, 19.10.84


“Sonhar e ver concordam pouco: quem sonha muito livremente perde o olhar; quem desenha excessivamente bem o que vê perde os sonhos da profundidade.’’ Esse comentário de Gaston Bachelard ilustra com incisiva simplicidade um dilema que há tempo inquieta os artistas.

Mas sonhar e ver não são necessariamente inconciliáveis. Quantos encontraram ou se aproximaram de respostas equilibradas para tão complexa questão? Por certo foram poucos. Nem por isso o número dos que se aventuraram ou estão se aventurando diminuiu. O desafio permanece instigante, é atemporal – sempre persiste a busca de um intercâmbio afinado, um feedback entre ver e imaginar direcionado à elaboração de um projeto artístico.

Paulo Sayeg optou por esse difícil caminho. Ele é um atento e silencioso observador do cotidiano, da realidade imediata que o cerca, da qual sabe extrair matéria-prima para seu trabalho. Investigar e apreender imagens próximas poderia tê-lo conduzido à objetividade fria de um registrador mecânico, anulando qualquer força e calor da imaginação. Por outro lado, simplesmente imaginar poderia tê-lo aprisionado numa subjetividade vazia, como um visionário que perambula num beco sem saída. Sayeg não caiu nessas armadilhas. Ao contrario, estabeleceu diretrizes que estão cada vez mais se tornando vigorosas, Ele está em pleno processo de construção de seu próprio binômio ver-fantasiar: basta verificar as ricas soluções plásticas de seus desenhos, onde há um sutil jogo de imagens que ora se revelam e ora se abstraem, criando atmosferas misteriosas.

Ao primeiro contato, é muito difícil perceber o universo formal de Paulo Sayeg, que, de imediato, não seduz. É preciso insistir, olhar novamente e tornar a olhar, afastando uma sensação incômoda, um estranhamento quase que inevitável. Na verdade, o choque inicial resulta do caráter ácido de grande parte das composições: há uma necessidade de expor e questionar a angustiante realidade contemporânea, sem qualquer tipo de subterfúgio, de modo cru e direto. Produzindo situações sob forte conflito e tensão, tudo acaba lhe servindo de pretexto para atingir sua meta – desde imagens banais, como figuras humanas e animais, até as mais fantásticas, como seres e tempestades.

A linguagem plástica de Sayeg se caracteriza pela profusão de elementos; entretanto, não atinge o excesso, o que poderia vir a ser um problema.
Existe sempre a necessidade de utilizar muitos registros gráficos que vão se acumulando e se sobrepondo na definição das formas. Um grafismo irrequieto e pulsante, marcadamente pessoal, determina o clima contundente das soluções. Nota-se que, em relação às suas experiências anteriores, os desenhos estão mais despojados quanto à cor: agora são mais do que nunca puramente estruturais; sem a participação de muitas cores que, em alguns dos antigos trabalhos, não resultavam em ganho qualitativo.

Espontaneamente construído sobre o papel, o traçado assinala o vertiginoso processo que ele experimenta quando está desenhando. Manifesta-se uma obsessão desmedida pelo fazer, pelo incessante exercício de pesquisa como meio de depuração das idéias. Em alguns trabalhos, aproxima-se do limite máximo das possibilidades, mesmo sob o risco de anular os objetivos pretendidos. As estruturas começam a ficar intrincadas e labirínticas ao extremo, prestes a comprometer os propósitos – torna-se evidente que o artista quis prolongar seu fluxo de criação, chegando às ultimas conseqüências. Afinal, seu maior interesse é desenhar muito, permanentemente; os excelentes resultados que atinge são conseqüências naturais de tamanha obstinação.


Guilherme Mazza Dourado

São Paulo, 1993


O COMEDOR DE GORDURA DO PARAÍSO

- Olha, hoje não estou bem – declara a figura.
- Estou trabalhando o tempo todo, explodindo os lápis, manchando os papéis Fabriano (utilizando técnicas de todos os tipos), mas meu espaço é muito pequeno e o cheiro da tinta faz perder meu paladar – isto é, estavam servindo uma salada de agrião...

O pintor grande e desajeitado com a salada em sua frente, continuava a insistir em contar seu pluralismo e sua agonia de traçar todas as linhas nos papeis. Chega então à mesa uma costela e uma picanha 30 x 20 cm cada uma. Fiquei surpreso: o Pintor sem paladar começou a devorar sem nenhum preconceito grandes placas de gordura apreciando sensivelmente os detalhes. Melhorou imediatamente de aspecto e falou de suas telas grandes sem chassis que esperava colocar em algum lugar. Senti que o café da manhã o inspira ao gráfico e o almoço à pintura. Após essa orgia fomos ver uma série de desenhos e fiquei entusiasmado. Pude entender quase tudo: mulheres = devoradoras de pernis = I like frango. Mas também faz aquarelas olhem prestem atenção meus amigos, comprem logo seus desenhos antes que ele possa come-los todos com um pouquinho de azeite. Trata-se de artista de 25 anos, artista anti-curricular – talentoso, rico em suas pesquisas.

Trabalha sensivelmente com todas as técnicas e não está preso à geração dos pintores que só pintam expressionismo, logo não é um pintor da fase tok – Stok. Ativa bastante o seu lado bem-humorado e traz aparentemente o aspecto do Pintor Pós-Moderno.
Uma figura Bukowskiana.


Ivald Granato

São Paulo, abril de 19985


Nação Alquímica de Paulo Sayeg

Vamos brincar de bicho-papão? Ou vamos brincar de começo do mundo. Porque no princípio era o caos & o caos estava habitado por monstros informes.
Perigoso início onde toda forma está contida, bastando puxar os fios da meada.

Para onde leva este começo de mundo?
Mistério. Em que tudo pode ser isto, mas também seu oposto. O caos, mas também o começo da criação. São convites dúbios que a Nação de Paulo Sayeg pode fazer.
Serpente mostrando a maçã. Semente ou pecado? Semente & pecado.

A Nação de Paulo Sayeg fala da perversão histórias cabeludas, nos dois sentidos. Cheios de pêlos que se desenrolam infinitamente obscenos. Ou se misturam em pelotas enigmáticas. Feios fantasmas do inconsciente.
Seres em cápsulas espaciais, boiando a deriva, que atacam de repente.

Inocentes & brutais. Um pouco demônios, um pouco escafandristas. Nesta Nação vivem seres de feições incompletas.
Mas podem estar apenas usando máscaras, aquelas de couro negro do ritual sadomasoquista, que impõe anonimato. Ou a primazia do simbólico.

Nesta Nação: polvos-cogumelos, mas também órgãos que se autopentram. Monstros medonhos, em clima de pesadelo: aliens que saltam & nos assaltam por todos os lados. Mas também fantasias, puras fantasias carnavalescas.

Engraçadas ou, no mínimo, paródias de monstros de pesadelo. Desenho & escritura. Personagens de histórias em quadrinhos, mas também grafismos, puro rabisco de histórias escabrosas a serem decifradas.

Que obsessões contariam esses textos indecifráveis da Nação de Paulo Sayeg?

Desejos. Desejos que se escrevem sobre o corpo, como no filme de Peter Greeneway. Perigosamente inscreve-se o amor no corpo. Com excesso & proporcionalidade.
Personagens que enrolam & desenrolam. Cordas do sacrifício final ou cordões umbilicais do parto?

Nesta Nação, há monstros tentaculares que remetem sim ao medo que remete à dor e à morte. Como os demônios que nos habitam, porque há dor e morte ancoradas dentro de nós.

O eu se escancara à perigosa vida. Viver é horripilante. Dói. Nesta Nação: enfrentam-se os demônios interiores como violação sistemática do eu. Pura alquimia: tirar da dor a alegria não é a função de existir?

O processo interior como alambique de transformação que leva ao embriagamento. Viver é embriagante. Reluz.
Encarar o medo para ilumina-lo.

Na Nação de Paulo Sayeg, Máster & Mestre-de-cerimônias, faz-se o aprendizado da dor & da beleza. Puro mistério para onde convergem os contrários. Por acaso haverá algum sentido no Mistério?
Então, chega de saudade. Chega de perguntas, pó.

João Silvério Trevisan
São Paulo, 1998


SAYEG O CARA NÃO TEM JEITO

Paulo Sayeg não existe. Caso não fosse a ficção que o é, não prestaria. Ele é fruto da criação de Paulo Eduardo, esse sim um cidadão com rg, cpf e endereço fixo: saído do Cambuci, aportou na cultura brasileira com uma visão urbana, sotaque urbano cosmopolita e tintura urbana metropolitana. Por isso teve de inventar Paulo Sayeg, seu alter-ego.

Explica-se: quando há anos eu precisei de um diretor de arte na Companhia Lazuli, achei que esse profissional deveria ser não um cidadão gráfico, mas plástico, por acreditar que as artes plásticas, no espectro cultural brasileiro, é o setor mais bem informado e inquieto, só comparado à boa poesia pátria dos 50 (Drummond e Bandeira, Murilo Mendes, João Cabral de Mello Neto, Jorge Lima).

Será que estou errado? Não, definitivamente não. No Brasil, sempre foram as artes plásticas que detonaram a estética passadista, na expressão de Mário de Andrade. Na Semana de Arte Moderna, lá estavam Di Cavalcanti, Rego Monteiro e, numa menor escala, Anita e Tarsila; correndo por fora, a provocação maravilhosa de Manuel Bandeira, que mais tarde daria nas seminais oswaldianas. Cortando o tempo, veremos Helio Oiticica dando nome ao Tropicalismo; também por fora, a poesia de Torquato Neto musicada pelos baianos. Bem, se pegarmos carona nas inquietações semelhantes de Mário Faustino, isso dá um ensaio e aqui não é o espaço mais apropriado. Sigamos. Daí que Paulo Sayeg trazia o embrião mais rebelde da geração paulistana dos 80. Afinal, o cara sabia desenhar, sabia a diferença entre pátina e veladura, sabia que a cor pode ser usada para simular volume, e não apenas altura, e tinha ainda a inquietação deprimida dos inconformados e descontentes. Era alguém assim que eu queria a meu lado.

A pintura de Sayeg, assim como sua constante performance, é um emaranhar-se dentro de signos, referências, deglutições, colagens e vivência urbana. Ali você olha e percebe os esboços de Michelangelo, os expressionistas alemães, um pouco do horror de Munch, os néons opacos de Goeldi e mesmo as cores angustiadas e nebulosas de Flávio-Shiró.

Em primeiro lugar, a pintura figurativa-radical de Sayeg esconde e dissimula um exímio desenhista – algo que se perdeu em algum canto da sala brasileira, hoje, tornado fora de moda pelos críticos conceituais e religiosos, adeptos de uma arte próxima à mesa asséptica de operação: um bisturi, e não um pincel, é o ícone. Sayeg não padece dessa lobotomia, ao contrário: sua destruição da figura é estudada, não intuitiva; é ideológica, não populista.

Depois, Sayeg é um artista de tintura medieval. No sentido pleno da definição. Ele acredita na necessidade de o criador possuir uma visão de mundo, mesmo que seja equivocada, e a colocar expressa em sua obra. Nada de abarcar discursos alheios ou mesmo modismos espúrios soprados na mídia ou na academia, nada disso: sua autenticidade o impede de falsas cumplicidades, de arranjos ou simpatias acomodadas.

O cara perde o elogio prometido, mas faz a piada e não se deixa cooptar pelas aparências. Seu mundo é bastante conturbado (basta se ver os nomes listados acima, como seus inspiradores), onde o homem não parece merecer muita confiança pelo resultado de sua obra cotidiana, talvez digamos destruição premeditada, e onde sua pintura vai desmanchando esse sonho de alumiar no instante em que o flagra sempre mais distante de seu paraíso original.

É como se dissesse que o homem não tem mais jeito.
Como todo grande artista, podemos discordar de sua visão. Nunca ignora-la, sob pena de integrarmos um malfado índex de imbecis.

Miguel de Almeida
Jornalista e Editor da Revista E do Sesc
1997


Paulo Sayeg em Plena Luta


“Nunca tive facilidade para o desenho. Tive paixão, o que é muito diferente”. Essa frase me foi dita, há mais de dez anos, por ninguém menos que Marcello Grassmann. Quer dizer que, surpreendentemente, todo o virtuosismo de traço desse grande mestre da gravura e do desenho brasileiros, toda sua fluência, a aparente naturalidade com que as formas brotam elegantemente de sua mão, são o resultado de uma vitória arduamente conquistada – e não uma dádiva dos deuses.

O caso de Paulo Sayeg me lembra, inevitavelmente, a confidência de Grassmann. Também aqui estamos diante de um artista que não tem o que eu considero facilidade natural para o desenho. As exposições mais antigas de Sayeg não revelam, nele, a existência de um super dotado, cujos olhos e mãos dão a impressão de trabalharem por si mesmo. Revelam a batalha pelo domínio de uma linguagem expressiva que seja, ao mesmo tempo, eficaz e pessoal. E essa batalha vem ligada a uma necessidade catártica conscientemente assumida pelo próprio artista. Se Grassmann teve paixão pelo desenho, Sayeg tem, sem a menor sombra de duvida, uma verdadeira obsessão.

Daí o caráter compulsivo – sob diversos aspectos – de seu trabalho. Sayeg começou a desenhar e pintar aos 8 anos, e teve, ainda na adolescência, uma formação completa e artesanal em varias técnicas. “Cheguei a ser um razoável pintor acadêmico’’, ele assegura. Mais tarde, trabalhou em todas as áreas onde pudesse exercitar sua vocação: publicidade, ilustração, desenho animado, cartazes, programação visual. Desde os 15 anos, entretanto, executava também alguns desenhos rápidos, exorcistas, intrincados, relacionados com a informação visual que encontrava a seu redor, e que incluía a escrita e os arabescos dos missais ortodoxomelquista da família. Essa ancestrabilidade árabe se mantém ainda hoje, a meu ver, em alguns gestos, e na superabundância que caracteriza a linguagem de Sayeg.

A superabundância se revela também num outro aspecto: o da intensidade da produção. Sayeg Trabalha como louco, dia e noite, sem fazer mais coisa nenhuma. “Às vezes, acho que estou esquecendo de viver. Mas viver para mim é isso mesmo’’, diz ele. Das centenas de desenhos que brotam visceralmente (o que não significa falta d controle: os trabalhos aparentemente mais rápidos são, às vezes, os mais lentos, pois Sayeg fica olhando e convivendo com eles para descobrir as soluções), do conjunto de trabalhos ele acaba mostrando só uma pequena quantidade: uns 30 por cento. O resto são como os andaimes para construção de seu edifício.

“É um edifício que se faz pedra por pedra. Dá vazão a angustias metafísicas, a fantasias (basta ver a produção erótica, que também se reporta a tradição árabe), a pulsões, e a uma visão do mundo meio pessimista: “Não encontro muito sentido nas relações humanas’’, afirma Sayeg – que, apesar disso, está atravessando um momento integrado e feliz de sua vida pessoal. Mas é para compensar a falta de sentido último da existência que ele busca sentido na arte e mergulha nela de cabeça.
Aos 27 anos, pode-se assegurar que Sayeg está em plena luta pelo crescimento, como ser humano e como artista. É uma luta inesgotável e insana, mas quem entra nela não tem saída. Vai diariamente carregar a sua pedra, como Sísifo. Fazer arte e querer negar a morte. E algumas pessoas nasceram marcadas com esse carma.


Olívio Tavares de Araújo

São Paulo, 12 de nov.1987


Desenhista compulsivo, criativo e intenso, de uma versatilidade de traço assustadora, Paulo Sayeg foi professor de toda uma geração de jovens artistas da cidade de São Paulo, sendo influencia clássica entre os amantes do desenho.


Siegbert Franklin

2004


Alguém escrever que para refletir sobre certas obras, é impossível não levar em conta o artista que as elaborou, notadamente aquelas cujo ponto central de sua gênese está no embate entre o artista e a matéria. Este é o caso de Paulo Sayeg. Sayeg é um inconformado. Inconformado com a situação atual do homem, da sociedade e com a própria ausência de significado que vê na existência do artista hoje em dia.

Esse inconformismo gerou na personalidade de Sayeg uma violência subjacente a todos os seus atos. Um nervosismo nos gestos cotidianos, no fluxo tenso de sua conversa... Conviver com Sayeg é experimentar a inadaptação personificada.
“A única maneira de violentar alguma coisa com intensidade é no meu trabalho. Lá solto minha violência lá eu reajo...”

Este testemunho do artista coloca seus desenhos e pinturas como extensões de sua personalidade, ao mesmo tempo que coloca numa “freqüência sensível” onde atuaram e atuam artistas de interesse. Impossível, ao ler esse testemunho de Sayeg, não recordar um depoimento de Vlaminck sobre sua pintura: “O que na sociedade só poderia ter feito soltando uma bomba..., tentei realizá-lo na arte, na pintura... Satisfez minha vontade de destruir, de desobedecer, a fim de recriar um mundo sensível, vivo e alegre...”

Aproximar Sayeg de Vlaminck e conseqüentemente, da “freqüência expressionista” do inicio do século, só não será uma ação de êxito completo pelo fato de faltar ao primeiro a crença na arte como passível de transformar o mundo. Para ele, “o pintor e uma figura do museu”, ou seja, um individuo cujas funções de sua profissão foram superadas historicamente.

Das primeiras tendências expressionistas do século teria ficado em Sayeg o desespero e a violência frente ao mundo, não a noção regeneradora da arte. Se em suas pinturas anteriores a violência do gesto parecia ainda refreada pela obediência a definição da figura em relação ao fundo se o gestualismo nervoso de seu pincel ainda respeitava os limites da forma—ou seja, se antes era possível perceber um “algo a dizer” a partir do estabelecimento de um código compartilhavel com o outro – nota-se na produção que Sayeg agora apresenta na galeria Paulo prado uma tendência a explosão de qualquer codificação formal. O artista parece agora abandonar os pontos de contato entre sua produção e a dos antigos “fauves”, deixando prevalecer apenas sua intencionalidade operativa aproximando-se das “poéticas do incomunicável” [argan], dos actions-panters norte americanos.

Já não se percebe em seus trabalhos atuais, com tanta nitides a construção ou o desejo de construção de um código decifrável. O espectador agora precisa desvelar por entre manchas , texturas e pinceladas obsessivas, as formas iniciais do discurso que detonou cada trabalho, mas que o artista recusou-se a clarear, pela ação que sobrepôs as mesmas, como se desejasse extinguir qualquer possibilidade de velas relacionando se com o exterior.para uma reflexão sobre a produção atual de sayeg não se deve mais perguntar “o que o artista desejou dizer com isso?”,
mas, “o que o levou a agir assim sobre a tela?”
parafraseando Argan no caso de sayeg não cabe agora ao artista dizer o que faz no e pelo mundo mas anos dar um sentido aquilo que faz.

Tadeu Chierelli
1988

 
 
 
Ana Cláudia Roso - Escritório de Arte
Rua José Maria Lisboa, 1008 sobreloja - tel: (011) 3063-3707
São Paulo - SP - Brasil